A MUTAÇÃO DA DEMANDA POLÍTICA
A MUTAÇÃO DA DEMANDA POLÍTICA
Ihering Guedes Alcoforado
Esta comunicação trata das implicações políticas da transformação da incerteza no nosso destino e, tem como objetivo mostrar que tal fato i) desloca o foco da política da convivência para a política da sobrevivência e, ii) cria as condições de possibilidades para novas modalidades de políticas que se coloca como causa de boa parte dos processos institucionais e organizacionais associados a globalização dos problemas. Com este propósito o trabalho consta desta introdução mais duas partes e uma conclusão.
Na primeira parte mostro como a incerteza emerge no âmbito da política a partir da tomada de consciência das conseqüências das ações humanas potencializadas pelas técnicas, já que a própria sobrevivência da humanidade passa a ser objeto de decisões políticas; ainda na primeira parte, apresento como nesta nova situação gera-se uma “angustia antropológica” que cria as condições para uma nova representação e, em decorrência para novas modalidades de política. Na segunda parte, mostro que estas novas modalidades de políticas se apóiam no deslocamento do foco da política: da convivência enraizada na tradição do realismo filosófico para a sobrevivência que se apóia na tradição vitalista. Na conclusão, chamo atenção para a impropriedade, nesta nova situação, da celebração existencialista-nilista do livre arbítrio e, para as possibilidades em latências nas heresias seculares associadas a Ética da Responsabilidade de Hans Jonas e ao Direito Natural neoplatônico de Leo Strauss, na definição de uma estratégia de enfrentamento dos desafios de natureza do tempo presente que emergem no rastro das incertezas.
1. Incerteza e Política
O nosso ponto de partida é a constatação que a incerteza tem se transformado em nosso destino, a partir do que entramos em uma nova época na qual o lugar até então ocupado pela política da convivência passa a ser ocupado pela política da sobrevivência que informa tanto nossa relação com o coletivo como nossa inserção na natureza. A emergência da incerteza acompanha a potencialização da ação humana pela técnica, a exemplo do que se dá com a energia atômica e, mais recentemente o aquecimento global, partir do que a própria sobrevivência da humanidade passa a depender de um conjunto de decisões políticas. É sintomático das ameaças desta nova realidade o rápido consenso que se estabeleceu em torno do principio da precaução que, a despeito das suas restrições a exploração dos recursos técnico-científico, rapidamente migrou do âmbito do debate social para o da controvérsia política, onde estruturou em seu entorno um consenso que, tendo como referência a problemática da sobrevivência orienta nossas preocupações e nossas escolhas, configurando um novo espaço público.
Atente-se que a nova relação na qual se ancora a política da sobrevivência se articula a partir de uma “angustia antropológica” diante de uma nova incerteza manufaturada pelo homem e que passa a informar nossa representação, por meio do que põe a preocupação pela vida e a sobrevivência no centro da política. Agora, ao contrário do que estabelece a tradição do realismo filosófico que considera a convivência, o estar juntos, a harmonia sincrônica real ou virtual como o objetivo prioritário dos seres sociais, o novo campo político que se estabelece nos rastros das novas incertezas associadas as decisões políticas de uso dos novos recursos tecnológicos se encontra invadido por uma duvida no concernente a incerteza e as ameaças que contém o futuro (porvir) que leva a “angustia antropológica”. Esta angustia é despertada pela incerteza que nos faz perceber as ameaças a perenidade da própria humanidade, a qual passa a ser percebida como precária em razão dos perigos que a ação humana potencializada pela técnica. É esta a angústia antropológica focalizada na sobrevivência que remodela de forma duradoura não só nossa representação do mundo mas também as modalidades de ação política, modificando as prioridades políticas o que se reflete no deslocamento da política da convivência para a política da sobrevivência.
2. Da política da Convivência à Política da Sobrevivência
Em função do exposto acima, admite-se que o surgimento no âmbito da política de um novo cenário transnacional no qual se manifesta uma parte dos novos espaços públicos, é antes que nada o resultado, não a causa, de uma mudança sem precedente em nossa relação com a política que se expressa pelo deslocamento do foco da política na convivência para a sobrevivência.
A política da convivência que tem sua origem sistematizada pelo realismo filosófico a partir do binômio caracterizado por uma harmonia nas relações internas e uma desarmonia nas relações externas e que foi sistematizado de forma emblemático por Thomas Hobbes, começa a deixar rapidamente o centro de nossas preocupações, a despeito dos fortes indícios de uma insegurança interna crescente. Isto porque, atualmente, o foco do interesse está na problemática da sobrevivência da própria humanidade e é isto que explica o fato que “[...] a aparição de novos espaços políticos transnacionais somente adquirem sentido desde esta abertura das práticas a problemática da sobrevivência. As idéias de justiça e de direito que prevalecem neste universo somente adquirem sentido na perspectiva do risco e da precaução. (ABÉLÈS,2008, p.13)
3. Conclusão
A prolbemática da sobrevivência é o coroamento de um processo de modernização, o que se estabelece a partir de uma solução de continuidade com a teologia e a mitologia, as quais até então forneciam o quadro normativo, a partir do qual se publicizava o que era ou não autorizado o homem fazer. Mas desde que a liberdade para o artifício humano foi autorizado, este tipo de enquadramento inviabilizou-se, gerando o problema de uma auto-autorização nilística. Esta nova situação, do ponto de vista teológico pode ser associado a heresia gnóstica, segundo a qual Deus abandonou sua criação, o que torna imperativo o homem compreender e seguir a lógica inerente a esta criação. Ou seja, com o deslocamento da mitologia e da teologia, emerge o problema da legitimação da ação humana num ambiente cultural dominado pelo nilismo e pelo agnosticismo.
Este desafio é magnificado recentemente com o deslocamento do foco da política da convivência para a sobrevivência e pode ser enfrentado, a partir dos insights de dois pensadores judeus: Hans Jonas e Leo Strauss. Hans Jonas propôs uma Ética da Responsabilidade fundamentada na biologia filosófica, a partir do que configurou uma numa apreensão neoaristotélica do mundo como um organismo vivo e, assim colocou uma alternativa a vontade de poder a partir de ponto de referência normativo apoiado na ecologia, a partir do que fornece os fundamentos filosóficos para o Principio da Precaução. Enquanto que Leo Strauss formulou uma concepção diferente da natureza como uma referência normativa para ação humana liberada das amarras do mito e da teologia: uma concepção neo platônica do direito natural que precede a ação humana, por meio da qual e, tendo como referência o Princípio da Precaução se pode extrair virtualidades que forme o núcleo de um Direito natural focado na sobrevivência, um elemento do novo ambiente institucional necessário ao atendimento da nova demanda política.
BIBLIOGRAFIA
BIBLIOGRAFIA
ABÉLÈS, Marc, Política de la Supervivencia. Buenos Aires: EUDEBA. 2008
LAZIER, Benjamin, God Interrupted: Heresy and the European Imaginatio nbetween the World Wars. Princeton . Princeton University Press. 2008
